
Vemos ainda o ballet como uma forte referência em dança, e seu ensino às vezes é marcado por uma postura de austeridade do professor. Com um grande distanciamento do seu aluno. Com a idéia de que apenas "corpos eleitos" podem responder às exigências da técnica, é comum vermos relações humanas distorcidas dentro de sala de aula. Com resultados educacionais negativos que vão muito além do espaço em que a aula acontece. Desde seu surgimento, o ballet clássico passou por diversas modificações. Mas seu código permanece muito solidificado nas primeiras sistematizações da técnica. E desde então estabeleceu-se um padrão corpóreo que preservava a imagem da bailarina etérea. Magra, leve e frágil (a figura da sílfide) com linhas definidas movimentos refinados. Os homens também tinham que responder a uma imagem ideal, com a mesma exigência de magreza, porém com capacidade de explosão muscular e força para que as respostas deste corpo fossem tecnicamente satisfatórias (satisfatórias a quê? A quem?), aptos a executar seqüências de movimentos cheios de virilidade e virtuosismo. O ballet foi ganhando características que exigiam (e ainda exigêm) um estudo diferenciado
do corpo, levando-o trabalhar em situações extremas muitas vezes negligenciando o psicológico e o emocional. Acreditando ainda neste padrão como único, muitos professores preservam em suas aulas de ballet a postúra de que só podem trabalhar com alunos e alunas que possam Alcançar este ideal e de alguma forma "torturam" os que estão mais distantes dele. Não é raro encontrar aqueles professores que ressaltam diante dos companheiros de aula que determinados alunos estão "acima do peso". conseqüentemente fracos e sem condições físicas de responder às exigências da técnica. 'Seria mais apropriado dizer que não respondem as expectativas (muitas vezes equivocadas) deste professor o que não os impede desenvolver a técnica com suas Possibilidades corporais.
A justificativa mais comum para tal atitude é que "o ballet exige disciplina". Eu creio sim que ela seja necessária, mas que não seja imposta de maneira militar. O professor com uma proposta pedagógica sólida faz com que a disciplina se estabeleça na sala de aula. E os alunos começam a perceber essa necessidade quando observam que uma postura de atenção e respeito potencializa seu próprio aprendizado ajudando-os a colher os frutos de sua dedicação. Pensar nos alunos como um corpo que pode
ou não responder a determinado movimento negligencia a totalidade do ser humano
não prioriza as relações entre fisicalidade, o psicológico, a razão, o emocional; relações ricas que podem se estabelecer com uma proposta de ensino humanizado da dança. Ela é uma grande chance de ver o ser humano agindo em sua totalidade (e então a dicotomia corpo-mente é abandonada) se conhecendo, se individualizando sem comprometer a noção de coletividade,dialogando com o meio. Percebeu-se que a técnica pode ser mais democrática pensada de forma mais global indo além da performance técnica-estética. Considerou-se que em diferentes lugares do mundo existem diferentes corpos (o corpo europeu apresenta características físicas diferentes do corpo brasileiro, sendo que o próprio "corpo brasileiro" é muito diversificado) e que estes podem se relacionar com a técnica de maneira saudável. dentro de suas realidades e possibilidades, sem, contudo deixar de priorizar a qualidade. Não basta apenas "importar" a técnica e métodos de ensino é preciso repensa-lá dentro do contexto em que será utilizada. Mesmo no contexto profissionalizante onde as exigências e padronizações são mais evidentes, se faz necessário esse repensar. E também se percebeu que a relação de ensino aprendizagem dentro de uma aula de ballet (na verdade dentro de qualquer aula) transcende o tempo espaço em que ela acontece, levando aos seres humanos envolvidos neste processo informações sobre ele mesmo, o meio social, a vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário